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Mindfulness aumenta a concentração nos estudos na escola “em casa”

Marcelo Demarzo

08/05/2020 04h00

Crédito: iStock

Praticar mindfulness (atenção plena) com as crianças e adolescentes aumenta a concentração nos estudos e ajuda os pais a lidarem com a "escola dentro de casa" em tempos de coronavírus

A atenção plena é uma técnica mental classicamente associada ao combate do estresse no dia a dia. Mas cada vez mais escolas têm oferecido essas técnicas para as crianças e adolescentes.

E essas mesmas técnicas podem ser aplicadas agora dentro de casa, já que uma boa parte das crianças e adolescentes estão estudando em domicílio, com o apoio dos pais.

De acordo com os estudos e a experiência do Projeto "Mindfulness in Schools", uma referência em toda a Inglaterra e Reino Unido, e que desenvolve currículos para uso em escolas públicas e privadas, a técnica pode ajudar na concentração, auxiliando as crianças a direcionarem sua atenção para a tarefa ou atividade que estão desempenhando naquele momento – em vez de ficarem com a "mente viajando" ou sobrecarregadas de preocupação com o que aconteceu ou pode acontecer.

Além da maior concentração e consequente melhoria nas notas, as pesquisas científicas observaram efeitos positivos do uso da atenção plena na saúde mental, qualidade do sono e no bem-estar de crianças e adolescentes que passam pelo treinamento.

A prática da atenção plena, quando feita de maneira regular, está associada à melhora da atenção, redução da percepção de estresse, melhora do reconhecimento e regulação dos sentimentos e emoções (em especial, as negativas como a raiva e o medo excessivo), aumentando também a capacidade de empatia e compaixão das crianças e adolescentes na convivência com os colegas e familiares.

Esses benefícios são observados mesmo em "micro-sessões" de alguns minutos, com exercícios lúdicos (em tom de brincadeira) e que podem ser aplicados pelos próprios professores e pais.

Três técnicas simples que podemos ensinar aos filhos para melhorar a concentração

As técnicas podem ser praticadas a qualquer hora, em qualquer lugar, como, por exemplo, depois do café da manhã, ou antes da hora do jantar ou de dormir. E podem ser incorporadas a momentos de exercício físico ou qualquer outra atividade regular que já façamos com nossos filhos.

Começamos sempre com exercícios mais curtos no início, e podemos ampliar o tempo até aproximadamente 10 minutos por dia, se as crianças e adolescentes se motivarem.

  • Escutando o som do "sininho": Toque um "sininho" ou "campainha" e peça às crianças que ouçam atentamente a vibração do som até acabar. Antes de começar, pedimos para que elas fiquem em silêncio, e que levantem as mãos quando não ouvirem mais o som do sino. Depois, se quisermos complementar o exercício, podemos propor para que fiquem mais um minuto em silêncio, e, após, descrevam (falando ou escrevendo numa folha de papel) quais outros sons do ambiente conseguiram ouvir dentro daquele minuto. Este exercício pode ser divertido e interativo, pois em geral as crianças ficam empolgadas em compartilhar suas experiências com outras pessoas (adultos ou crianças), ao mesmo tempo que ajuda na conexão e concentração nas sensações sonoras;
  • Respirando com o "bichinho de pelúcia": este exercício é voltado especialmente a crianças menores, em torno de 4 a 7 anos. Pedimos para a criança escolher um bichinho de pelúcia de sua preferência (ou outro brinquedo ou objeto pequeno que ela goste). Se o ambiente permitir, pedimos à criança que se deite no chão ou na cama, e coloque o bichinho de pelúcia na barriga. Se não der para se deitar, o exercício pode ser feito sentado, com a criança apoiando o bichinho com as mãos na região da barriga, de maneira confortável. Então, pedimos a ele(a) para respirar em silêncio por um minuto, observando como o seu "Amigo da Respiração" (bichinho ou objeto) "se move para cima e para baixo", ou qualquer outra sensação que ele(a) perceber ou notar. Orientamos também para que a criança imagine que os pensamentos que eventualmente vierem à sua mente se transformam em "bolhas de sabão", e flutuam para longe pouco a pouco, e ele(a) volta a observar o "Amigo da Respiração" outra vez. A presença do "Amigo" torna a técnica mais amigável, e permite que as crianças enxerguem o exercício como uma atividade lúdica, uma brincadeira;
  • Respiração consciente de 3 minutos: este exercício é voltado especialmente a crianças maiores de 7 anos e adolescentes. As crianças podem ficar em pé ou sentadas para esta atividade. Pedimos inicialmente que coloquem as duas mãos na barriga, e fechem os olhos, ou, alternativamente, olhem para as mãos (com os olhos relaxados). Orientamos então que comecem inspirando e expirando de maneira um pouco mais profunda, por duas a três vezes, para ver se conseguem sentir as mãos se movimentando. Depois, podem voltar a respirar normalmente, mas mantendo a atenção nos movimentos (e pausas) das mãos, enquanto o ar entra e sai naturalmente pelo corpo. O exercício completo pode durar até aproximadamente 3 minutos. Lembramos a eles também que, se a mente ou os pensamentos forem para outro lugar durante o exercício, não há problema pois é o normal de nossa mente (igual os macaquinhos que naturalmente ficam pulando de galho em galho), mas que eles sempre poderão voltar à percepção dos movimentos das mãos quando notarem que a "a mente tá pulando de galho em galho", sem precisar "brigar com isso".

É importante lembrar que esses exercícios simples de concentração para crianças sempre são mais efetivos e "legais" se são feitos junto com os pais (e os pais já aproveitam para praticar também).

Pais, vamos praticar também? Nesse link você encontrará uma playlist completa para adultos, na forma de curso introdutório de mindfulness, com práticas simples e acessíveis a qualquer iniciante.

Mande sua pergunta: Se você tem alguma dúvida ou curiosidade sobre mindfulness, atenção plena, ou neurociência do comportamento, por favor me escreva que terei prazer em abordar seu tema em textos futuros: demarzo@unifesp.br

Referência:

Demarzo, Oliveira, Terzi & Garcia-Campayo. Mindfulness para profissionais de educação: práticas para o bem-estar no trabalho e na vida pessoal. Editora Senac, 2020.

Para Saber Mais:

www.mindfulnessbrasil.com (Mente Aberta – Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde – UNIFESP)

www.webmindfulness.com (WebMindfulness – Grupo de Pesquisa Coordenado pelo Prof. Javier García-Campayo – Universidad de Zaragoza, informações em espanhol)

www.umassmed.edu/cfm (Centro de Meditação "Mindfulness" na Medicina, Universidade de Massachusetts, Estados Unidos, informações em inglês)

Sobre o autor

Marcelo Demarzo é médico especialista em mindfulness (atenção plena), professor e pesquisador na área de medicina, saúde e bem-estar. Ministra cursos e palestras sobre estilo de vida mindful, bem-estar e saúde --expertise desenvolvida em 15 anos como professor e pesquisador em vários hospitais e universidades brasileiras (UNIFESP, USP, Hospital Israelita Albert Einstein) e internacionais (Universidade de Oxford, Universidade de Zaragoza, Harvard University). É autor de livros e estudos científicos relacionados ao tema de mindfulness e qualidade de vida e realiza dezenas de atendimentos individuais e em grupo para disseminar o conceito de mindful living (viver pleno e consciente). É coordenador da Especialização em Mindfulness da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo).

Sobre o blog

Dicas e reportagens sobre saúde e qualidade de vida, com foco em mindfulness e bem-estar. Um espaço interativo para conversarmos sobre como desenvolver um estilo de vida mais mindful (pleno e consciente), que irá ajudá-lo a lidar melhor com o estresse, algo tão comum na nossa vida atual.