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Mindfulness Para o Dia a Dia

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Tipos de “sofrimento” ou mal-estar: o primário e o secundário (evitável)

Marcelo Demarzo

2026-06-20T19:04:00

26/06/2019 04h00

Crédito: iStock

As situações de mal-estar muitas vezes são inevitáveis, e aceitar esse aspecto da vida é fundamental. Por outro lado, uma quantidade considerável de mal-estar ou sofrimento são evitáveis, pois são produzidos pela maneira como encaramos as situações. Vamos entender melhor:

Um dos ensinamentos básicos dos treinamentos de atenção plena (mindfulness) é a diferença entre o mal-estar ou sofrimento "primário" e o sofrimento "secundário".

Sofrimento primário

São naturais da condição humana pelo simples fato de existirmos e, portanto, são inevitáveis. Alguns dos principais "sofrimentos primários", causas de mal-estar, são: envelhecer, adoecer, morrer e ver nossos entes queridos morrerem. São as regras da vida, por isso inevitáveis, apesar de causarem muito mal-estar e sofrimento.

Sofrimento secundário

São aqueles produzidos por "nós mesmos" (por nossa mente, na verdade) ao pensarmos ou lutarmos contra (de maneira irracional) as causas de sofrimento primário, não os aceitando. São evitáveis, desde que tenhamos uma nova perspectiva sobre a realidade do sofrimento primário. Por exemplo: após a morte do cônjuge, podemos desenvolver pensamentos do tipo "jamais poderei ser feliz, ninguém me amará como ele, a vida não vale a pena".

Com a prática regular de mindfulness pode-se identificar mais facilmente esse tipo de sofrimento e, muitas vezes, preveni-lo, diminui-lo, ou mesmo eliminá-lo.

Alguns outros exemplos de sofrimentos secundários, quando lutamos irracionalmente contra a realidade e não queremos aceitá-la, no sentido de encará-la como realmente é: no caso de sermos diagnosticados com uma doença grave e buscarmos compulsivamente opiniões de outros profissionais para confirmar que é um erro; quando buscamos a culpa em nós mesmos ou em outras pessoas por acontecimentos que são parte da natureza; ou quando diante da morte de um ente querido nos culpamos por não ter estado presentes.

Resumindo, há uma certa parcela de dor na vida, ligada à existência humana, que vamos ter que experimentar enquanto estivermos vivos. Por outro lado, há uma quantidade maior de sofrimento ligada a nossas expectativas pouco realistas sobre o mundo, ou enfretamentos pouco racionais da realidade, em geral causada por nossos próprios pensamentos ou interpretações das situações.

A parábola das duas flechas

É uma parábola budista bastante conhecida, que descreve os sofrimentos primário e secundário, e é muito utilizada nos treinamentos em mindfulness. A primeira flecha simboliza o sofrimento primário, inevitável, lançada pela vida. Está relacionada à perda, à morte, à doença. A segunda flecha é o sofrimento secundário, desnecessário, relacionado à nossa luta contra o que acontece conosco, à não aceitação da realidade. Muitas vezes o maior sofrimento é produzido pela segunda flecha, que é lançada por nós mesmos.

Vamos praticar?

Referência:

Demarzo & Garcia-Campayo. Manual Prático de Mindfulness: curiosidade e aceitação. Editora Palas Athena, 2015.

Para saber mais sobre mindfulness:

www.mindfulnessbrasil.com (Mente Aberta – Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde – UNIFESP)

www.webmindfulness.com (WebMindfulness – Grupo de Pesquisa Coordenado pelo Prof. Javier García-Campayo – Universidad de Zaragoza, informações em espanhol)

www.umassmed.edu/cfm (Centro de Meditação "Mindfulness" na Medicina, Universidade de Massachusetts, Estados Unidos, informações em inglês)

 

Sobre o autor

Marcelo Demarzo é médico especialista em mindfulness (atenção plena), professor e pesquisador na área de medicina, saúde e bem-estar. Ministra cursos e palestras sobre estilo de vida mindful, bem-estar e saúde --expertise desenvolvida em 15 anos como professor e pesquisador em vários hospitais e universidades brasileiras (UNIFESP, USP, Hospital Israelita Albert Einstein) e internacionais (Universidade de Oxford, Universidade de Zaragoza, Harvard University). É autor de livros e estudos científicos relacionados ao tema de mindfulness e qualidade de vida e realiza dezenas de atendimentos individuais e em grupo para disseminar o conceito de mindful living (viver pleno e consciente). É coordenador da Especialização em Mindfulness da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo).

Sobre o blog

Dicas e reportagens sobre saúde e qualidade de vida, com foco em mindfulness e bem-estar. Um espaço interativo para conversarmos sobre como desenvolver um estilo de vida mais mindful (pleno e consciente), que irá ajudá-lo a lidar melhor com o estresse, algo tão comum na nossa vida atual.