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Conheça um poema “mindful” útil para lidarmos com esses tempos difíceis

Marcelo Demarzo

22/05/2020 04h00

Foto: iStock | Podemos aprender mindfulness (atenção plena) também por meio de poemas ou textos mais literários que nos ajudam a compreender como levar uma nova perspectiva para o dia a dia, em especial em tempos de crises e incertezas.

Uma maneira de levarmos mindfulness para nosso dia a dia, em especial as atitudes "mindful" relacionadas à atenção plena (que nos ajudam a lidar melhor com as dificuldades próprias da vida), é ler poemas ou poesias que nos ensinam ou nos incentivam a novas posturas frente a vida.

Eles têm em geral uma linguagem mais acessível ou agradável, inspirando e nos motivando. É uma forma lúdica e muito efetiva de aprendermos mindfulness, e acaba funcionado como uma "prática informal".

Um dos principais e mais conhecidos poetas que abordaram mindfulness em seus textos (existem muitos) é o poeta da tradição Sufi conhecido como Rumi, que viveu há muitos séculos atrás, mas cujos poemas continuam muito atuais, em especial em tempos de Coronavírus.

Um de seus poemas, "A Casa de Hóspedes", é particularmente útil, pois fala de um tema chave para lidarmos com tempos e emoções difíceis, que é a "Aceitação" (diferente de "passividade", como veremos depois). Abaixo eu apresento umas de suas versões (tradução livre):

"O ser humano é uma casa de hóspedes.
Toda manhã uma nova chegada.
A alegria, a depressão, a mesquinharia, como visitantes inesperados.
Recebe e entretém a todos
Mesmo que sejam uma multidão de dores
Que violentamente varrem a tua casa e tiram os teus móveis.
Ainda assim trata os teus hóspedes honradamente
Eles podem estar a limpar-te para um novo prazer.
O pensamento escuro, a vergonha, a malícia, encontra-os à porta sorrindo.
Agradece a quem vem, porque cada um foi enviado como um guardião do que está por vir."
A Casa de Hospedes, Rumi (Mestre Sufi do sec. XII)

Esse poema fala então da atitude de "Aceitação" no ponto de vista de mindfulness. Dentre os conceitos relacionados à mindfulness, a ideia de aceitação não tem nada a ver com o senso comum de "passividade", e sim com a possibilidade de nos aproximarmos da realidade das coisas e dos fenômenos como eles realmente são, ou seja, sem interferência de juízos prévios de valor ou expectativas, mantendo uma perspectiva mais ampla, menos reativa.

A hipótese é que a partir da "aceitação" da realidade como ela realmente é, temos condições de tomar decisões mais sábias e conscientes, saindo do "automatismo".

Assim, nem nos "afundando" nos problemas (quando ficamos muito tristes ou paralisados), e nem buscamos soluções irrealistas, que às vezes pioram a situação (como por exemplo, abusar de álcool tentando esquecer o problema).

No poema, Rumi fala de nos abrirmos à realidade como ela é, mesmo que seja uma "multidão de dores que violentamente varrem" a nossa "casa", o que podemos correlacionar com o mal-estar ou estressores inerente à vida (pequenos ou grandes, como o que estamos vivendo agora).

Ao entendermos que a realidade pode se apresentar de várias maneiras, e que muitas delas estão fora de nosso controle (como uma pandemia), ou não correspondem às nossas expectativas, aprendemos a conviver melhor com tudo o que se apresenta à nossa "casa", e a possibilidade de sermos mais assertivos aumenta, preservando nossa saúde mental.

A ideia é que sempre haverá ou um espaço de livre-arbítrio (escolha) ou de aprendizagem ("eles podem estar a limpar-te para um novo prazer"), ou seja, abrindo novas possibilidades muitas vezes ocultadas pelos "automatismos" dos padrões antigos de enxergar ou fazer as coisas.

Como não precisaremos mais nos "esforçar irracionalmente" em "controlar todas as coisas", podemos tomar mais decisões com base no que vai emergindo na realidade das coisas, e assim teremos uma menor sensação de estresse, e desfrutaremos de mais momentos de felicidade. Poderemos claro, fazer planos, mas não esperaremos que eles se realizem da maneira exata que planejamos, o que é um alívio.

Vamos praticar essa atitude? Nesse link você encontrará uma playlist completa, na forma de curso introdutório de mindfulness, com outras práticas simples e acessíveis a qualquer iniciante.

Mande sua pergunta: Se você tem alguma dúvida ou curiosidade sobre mindfulness, atenção plena, ou neurociência do comportamento, por favor me escreva que terei prazer em abordar seu tema em textos futuros: demarzo@unifesp.br

Referência:

Demarzo & Garcia-Campayo. Manual Prático de Mindfulness: curiosidade e aceitação. Editora Palas Athena, 2015.

Para Saber Mais:

www.mindfulnessbrasil.com (Mente Aberta – Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde – UNIFESP)

www.webmindfulness.com (WebMindfulness – Grupo de Pesquisa Coordenado pelo Prof. Javier García-Campayo – Universidad de Zaragoza, informações em espanhol)

www.umassmed.edu/cfm (Centro de Meditação "Mindfulness" na Medicina, Universidade de Massachusetts, Estados Unidos, informações em inglês)

 

Sobre o autor

Marcelo Demarzo é médico especialista em mindfulness (atenção plena), professor e pesquisador na área de medicina, saúde e bem-estar. Ministra cursos e palestras sobre estilo de vida mindful, bem-estar e saúde --expertise desenvolvida em 15 anos como professor e pesquisador em vários hospitais e universidades brasileiras (UNIFESP, USP, Hospital Israelita Albert Einstein) e internacionais (Universidade de Oxford, Universidade de Zaragoza, Harvard University). É autor de livros e estudos científicos relacionados ao tema de mindfulness e qualidade de vida e realiza dezenas de atendimentos individuais e em grupo para disseminar o conceito de mindful living (viver pleno e consciente). É coordenador da Especialização em Mindfulness da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo).

Sobre o blog

Dicas e reportagens sobre saúde e qualidade de vida, com foco em mindfulness e bem-estar. Um espaço interativo para conversarmos sobre como desenvolver um estilo de vida mais mindful (pleno e consciente), que irá ajudá-lo a lidar melhor com o estresse, algo tão comum na nossa vida atual.