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Mindfulness Para o Dia a Dia

Como se comunicar com sabedoria? Ouvindo e falando com atenção plena

Marcelo Demarzo

02/01/2018 04h00

Crédito: iStock

Que tal começar o ano se comunicando de maneira mais eficaz e menos reativa? Neste post vou comentar sobre como mindfulness pode ajudar em uma comunicação mais empática, propondo dicas e exercícios simples para o dia a dia.

Por que esse tema é importante?

A comunicação é a base das nossas relações e da experiência humana em sociedade. Ao nos comunicarmos, expressamos nossos pensamentos, emoções e intenções; construímos e mantemos nossas amizades, relacionamentos amorosos e até trabalho; e ajudamos a criar uma ideia de quem somos, como estamos, e como agimos.

Além disso, diversos estudos têm mostrado que a base de nossa evolução como seres humanos é a cooperação, e a base da cooperação é a comunicação empática e assertiva.

Por outro lado, se não nos comunicarmos de maneira adequada, podemos complicar as nossas relações, e isso pode acontecer em especial nas situações nas quais emoções muito intensas (negativas ou positivas) se tornam armadilhas, levando ao "ouvir" desatento e ao "falar" reativo, às vezes, até agressivo. Nessas situações, com frequência não expressamos o que realmente somos e queremos, e consequentemente os arrependimentos são comuns.

Como "ouvir" e "falar" com atenção plena?

Aplicar mindfulness ao que ouvimos e falamos é um dos benefícios mais importantes da prática regular da atenção plena, possibilitando checar o que realmente compreendemos da comunicação verbal e não-verbal; e também permitindo perceber o que falamos, o tom e mensagens por trás de nossas palavras e gestos.

Veja alguns exercícios e dicas

AO OUVIR:

  • ouça com os "ouvidos" e não com a "boca", ou seja, escute o outro sem interrompê-lo, e com "expressões corporais" que indiquem sua presença (olhar para a pessoa enquanto ouve, por exemplo).

A ideia é que a escuta "mindful" seja um presente à pessoa que está nos falando. Isso envolve deixar de lado o impulso de pensar em respostas enquanto o outro fala, e numa atitude "mindful" de curiosidade sincera frente ao outro. Simplesmente ouvir, e demonstrar com o corpo que estamos ouvindo.

Parece óbvio, mas é comum não olharmos para as pessoas enquanto estão falando, ou estarmos pensando em outros temas ou nas respostas que vamos dar, com a mente viajando por aí no piloto automático. Ou ainda pior, é frequente interrompermos as pessoas antes que elas finalizem o que tinham para nos falar. Pesquisas na área da saúde mostram que em geral as pessoas necessitam de 2 minutos para expressarem tudo o que tinham para contar, mas que os profissionais as interrompem em média aos 17 segundos. Fique atento, e perceba se isso está ocorrendo durante suas conversas.

  • após escutar, cheque o que você realmente "escutou", ou seja, dê um feedback à pessoa sobre o que você compreendeu, e verifique se o que você entendeu corresponde ao que a pessoa queria lhe contar. Tome um tempinho nesse passo fundamental, pois além de demonstrar que você estava atento à conversa, permite prevenir "mal-entendidos", que são a base de uma comunicação ruim.

AO FALAR:

  • se possível faça uma pausa breve para perceber como você está naquele momento, ou seja, se há alguma emoção presente que possa influenciar ou atrapalhar a maneira de se expressar.

O tom de voz e a natureza das palavras também podem nos dar dicas sobre as nossas emoções naquele momento, prevenindo que palavras e expressões corporais agressivas possam causar dano emocional ao outro. Raiva, euforia, ou tristeza são alguns exemplos de estados mentais que podem levar a uma comunicação ruim e pouco empática. Em especial, se soubermos que vamos ter uma conversa "difícil", uma prática de 3 minutos de mindfulness um pouco antes pode nos ajudar.

  • observe se o conteúdo é realmente necessário, e se condiz com o tema daquela conversa específica, o que chamamos de fala "assertiva". Além, claro, de falar no tempo correto, abrindo espaço para o outro.

Se for houver possibilidade, é interessante escrevermos o que queremos comunicar antes de falarmos, o que permite reler o conteúdo e checar se o mesmo condiz com o que queremos transmitir. Novamente, isso é importante especialmente quando estamos sob estados emocionais muito intensos. Dar um tempo e voltar ao conteúdo após o estado emocional negativo (ou muito positivo) passar, é uma ação sensata. Podemos fazer isso mais facilmente com as respostas aos e-mails, por exemplo.

Assim, a aumento da atenção plena durante nossa comunicação interpessoal permite uma maior atenção às mensagens verbais e não verbais do outro e de nós mesmos, e uma maior capacidade de escuta e fala sem julgamento, gerando uma oportunidade para prevenir ou manejar melhor os conflitos. Estudos mostram que se comunicar com atenção plena gera maior satisfação nos relacionamentos, respostas mais construtivas, e menos estresse emocional durante as discussões e conflitos.

Feliz 2018 com atenção plena!

PARA SABER MAIS SOBRE MINDFULNESS:

www.mindfulnessbrasil.com (Mente Aberta – Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde – UNIFESP)

www.webmindfulness.com (WebMindfulness – Grupo de Pesquisa Coordenado pelo Prof. Javier García-Campayo – Universidad de Zaragoza, informações em espanhol)

www.goamra.org (American Mindfulness Research Association, Estados Unidos, informações em inglês)

www.umassmed.edu/cfm (Centro de Meditação "Mindfulness" na Medicina, Universidade de Massachusetts, Estados Unidos, informações em inglês)

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Marcelo Demarzo é médico especialista em mindfulness (atenção plena), professor e pesquisador na área de medicina, saúde e bem-estar. Ministra cursos e palestras sobre estilo de vida mindful, bem-estar e saúde --expertise desenvolvida em 15 anos como professor e pesquisador em vários hospitais e universidades brasileiras (UNIFESP, USP, Hospital Israelita Albert Einstein) e internacionais (Universidade de Oxford, Universidade de Zaragoza, Harvard University). É autor de livros e estudos científicos relacionados ao tema de mindfulness e qualidade de vida e realiza dezenas de atendimentos individuais e em grupo para disseminar o conceito de mindful living (viver pleno e consciente). É coordenador da Especialização em Mindfulness da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo).

Sobre o blog

Dicas e reportagens sobre saúde e qualidade de vida, com foco em mindfulness e bem-estar. Um espaço interativo para conversarmos sobre como desenvolver um estilo de vida mais mindful (pleno e consciente), que irá ajudá-lo a lidar melhor com o estresse, algo tão comum na nossa vida atual.