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Mindfulness Para o Dia a Dia

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Como manter uma prática regular de atenção plena ao longo da vida?

Marcelo Demarzo

10/07/2019 04h00

Crédito: iStock

Assim como a atividade física e o esporte, os benefícios da prática da atenção plena (mindfulness) apenas virão com a regularidade. E aí está o grande desafio de qualquer mudança sustentável de hábito ou comportamento: mantê-lo em médio e longo prazo.

Dessa maneira, uma das maiores dificuldades na prática de mindfulness é incorporá-la ao dia a dia ao longo de toda a vida. Os estudos existentes sobre o tema e a experiência clínica e docente em mindfulness sugerem que menos de 30% das pessoas, após passarem por um treinamento, mantêm uma prática regular por 6-12 meses.

Como comentei, este problema da manutenção da prática ao longo dos anos não ocorre somente em mindfulness, mas também em muitos outros âmbitos, como nos hábitos de uma vida saudável (exercício físico regular, dieta saudável), atividade artística (prática de algum instrumento musical, teatro, dança) e, praticamente, em qualquer atividade humana.

Em geral, nos primeiros meses, a prática costuma ser intensa e frequente. Mas, ao longo do tempo, começa a se espaçar cada vez mais e ter sua duração encurtada. Sempre acabamos encontrando razões para justificar o abandono da prática. Tal processo é compreensível, porque na vida temos múltiplas atividades que podem ser satisfatórias, e fica difícil escolher entre elas, uma vez que o tempo é limitado.

Da mesma forma que em outros hábitos, em mindfulness o abandono da prática deve ser considerado como mais uma fase do processo de aprendizagem e, desde o início do treinamento podemos já deixar preparadas medidas preventivas nesse aspecto. Na sequência, cito algumas:

Motivação e os Valores de Vida

Para qualquer atividade se manter ao longo do tempo, deve ter lugar relevante em nossos valores e nosso sentido de vida. Por isso, é importante de vez em quando revermos nossos valores (o que nos motiva, ou o que realmente consideramos importante, ou seja, os "nortes" de nossa vida) e nossos compromissos e analisar o papel de mindfulness em relação a eles.

A experiência nos ensina que as pessoas que mantêm a prática de mindfulness durante anos são as que têm um claro sentido de vida vinculado à prática.

Apoio do grupo

Como em qualquer atividade grupal, é muito mais fácil manter mindfulness se, à prática individual, agregar-se uma prática em grupo. O grupo cria um apoio e um compromisso, o que facilita a manutenção da prática.

Por essa razão, uma das decisões mais eficazes para incluir mindfulness na vida diária é pertencer a um grupo de práticas meditativas. O ideal é que esse grupo de prática seja de mindfulness como tal, porém nem sempre se encontra disponível. Outra opção alternativa, dependendo de nossas crenças, é participar em grupos de meditação ligados a tradições religiosas (zen-budismo, budismo tibetano ou vipassana), ou em grupos de yoga ou outras técnicas mente-corpo, como taichi ou chi kung.

Prática em si

Poder manter uma formação e uma prática periódica permite aprofundar em mindfulness, fazendo com que sua eficácia em diferentes âmbitos da vida torne-se mais evidente e reforce o interesse pela prática.

Por essa razão, é útil ler periodicamente livros ou artigos sobre mindfulness ou assistir a conferências e cursos sobre o tema e visitar páginas relacionadas na internet.

Entretanto, o que mais faz crescer nossa fidelidade à prática é a realização de retiros de imersão periódicos. Uma vez por ano é considerada uma frequência recomendável. De início é melhor que os retiros sejam curtos, de um a dois dias de duração e depois poderão ser mais longos – de três a sete dias.

Tecnologias

Se utilizadas de forma adequada, o auxílio das novas tecnologias pode ser importante. Por exemplo, existem grupos virtuais de prática que permitem fóruns de discussão ou a assistência virtual a práticas transmitidas pela internet em tempo real, ou que podem ser armazenadas em vídeo para realizá-las em um momento mais adequado. A possibilidade de praticar em grupo, mesmo que de modo virtual, permite colher alguns dos benefícios descritos. Outra opção são os aplicativos de celular; e já existem dezenas disponíveis tanto em iOS como em Android.

Por fim, outro aspecto importante é assumir que a vida é muito longa, que todos temos períodos de mudança e que haverá épocas em nossa vida quando até mesmo práticas bem enraizadas como pode ser mindfulness, terão menos importância para nós. Devemos assumir então que a vida é uma corrida de longa distância e que teremos altos e baixos periódicos, incluindo a prática de mindfulness.

Vamos praticar?

Mande sua pergunta: Se você tem alguma dúvida ou curiosidade sobre mindfulness (atenção plena) ou neurociência do comportamento, por favor me escreva que terei prazer em abordar seu tema em textos futuros: demarzo@unifesp.br

Referência:

Demarzo & Garcia-Campayo. Manual Prático de Mindfulness: curiosidade e aceitação. Editora Palas Athena, 2015.

Para saber mais sobre mindfulness:

www.mindfulnessbrasil.com (Mente Aberta – Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde – UNIFESP)

www.webmindfulness.com (WebMindfulness – Grupo de Pesquisa Coordenado pelo Prof. Javier García-Campayo – Universidad de Zaragoza, informações em espanhol)

www.umassmed.edu/cfm (Centro de Meditação "Mindfulness" na Medicina, Universidade de Massachusetts, Estados Unidos, informações em inglês)

 

Sobre o autor

Marcelo Demarzo é médico especialista em mindfulness (atenção plena), professor e pesquisador na área de medicina, saúde e bem-estar. Ministra cursos e palestras sobre estilo de vida mindful, bem-estar e saúde --expertise desenvolvida em 15 anos como professor e pesquisador em vários hospitais e universidades brasileiras (UNIFESP, USP, Hospital Israelita Albert Einstein) e internacionais (Universidade de Oxford, Universidade de Zaragoza, Harvard University). É autor de livros e estudos científicos relacionados ao tema de mindfulness e qualidade de vida e realiza dezenas de atendimentos individuais e em grupo para disseminar o conceito de mindful living (viver pleno e consciente). É coordenador da Especialização em Mindfulness da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo).

Sobre o blog

Dicas e reportagens sobre saúde e qualidade de vida, com foco em mindfulness e bem-estar. Um espaço interativo para conversarmos sobre como desenvolver um estilo de vida mais mindful (pleno e consciente), que irá ajudá-lo a lidar melhor com o estresse, algo tão comum na nossa vida atual.