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Atenção plena é efetiva no tratamento do tabagismo

Marcelo Demarzo

05/02/2020 08h14

iStock

Participar de um treinamento de mindfulness (atenção plena) pode ser efetivo no tratamento do tabagismo, quebrando o ciclo vicioso de "recompensa" que torna difícil o ato de parar de fumar.

A dependência do fumo ou tabaco é a principal causa de morte evitável em todo o mundo há décadas. Mas por que, apesar dos riscos do tabagismo serem amplamente divulgados e conhecidos, temos tanta dificuldade em parar de fumar?

Uma razão bastante conhecida é que o cérebro possui um sistema de aprendizado baseado em recompensa, ou seja, fazer algo que faça nos sentirmos bem traz uma ideia de "recompensa", que acaba reforçando o comportamento, estimulando para que façamos a mesma coisa mais vezes.

No caso do tabagismo, cada tragada de um cigarro fornece nicotina para o cérebro, a qual se liga a receptores que desencadeiam uma onda de dopamina, um neurotransmissor que provoca bem-estar imediato, estimulando um determinado comportamento (no caso, fumar).

Assim, toda vez que fumamos, incentivamos nosso cérebro "a dizer a nós mesmos": "isso é muito bom, por favor faça de novo".

Como o mecanismo de aprendizado baseado em recompensa em geral provoca uma satisfação imediata, mas que dura pouco, ficamos "presos" em um ciclo de repetições do mesmo hábito difícil de interromper.

No caso do tabagismo, várias abordagens terapêuticas tentam quebrar esse ciclo, mas não é tarefa fácil, a taxa de recaída depois de um tempo de tratamento é ainda muito grande. Alguns exemplos são os cigarros eletrônicos com substâncias que tentam copiar o papel da nicotina, ou as próprias terapias de reposição de nicotina (adesivos e chicletes).

Uma nova abordagem terapêutica que tem sido testada com sucesso são os treinamentos em mindfulness (atenção plena), que funcionam "quebrando" exatamente esse ciclo vicioso.

Uma das maneiras que a atenção plena pode ajudar é ampliando a percepção dos efeitos imediatos do cigarro, quebrando o automatismo do hábito. Por exemplo, ao prestarmos mais atenção ao ato de fumar, podemos perceber melhor a "sensação de queimação" enquanto inalamos a fumaça, ou que os cigarros não têm um gosto tão bom, ou ainda que o cheiro de fumaça pode ser desagradável.

Assim, a percepção de bem-estar para o cérebro fica diminuída, ajudando a atenuar a força do mecanismo de recompensa. Os estudos nos mostram que há uma clara relação inversa entre a prática regular da atenção plena e o hábito de fumar, diminuindo também a "fissura" de fumar.

O Programa conhecido como MBRP (Mindfulness-based Relapse Prevention) é um dos treinamentos em mindfulness específicos para o tratamento de dependência de tabaco (e também de álcool e outras drogas). Ele é composto por oito sessões, ao longo de 2 meses. O protocolo foi desenvolvido por um dos "papas" das pesquisas e das intervenções psicológicas sobre a dependência de substâncias, o americano Alan Marlatt.

Recentemente, um grupo de pesquisadores descobriu que aplicativos para smartphone desenhados para o treinamento online de mindfulness também podem ser efetivos para o tratamento do tabagismo. O app foi eficaz na redução do consumo diário de cigarros, como também diminuiu a impulsividade frente a imagens relacionadas ao cigarro, atenuando a fissura.

Vamos praticar?

Mande sua pergunta: Se você tem alguma dúvida ou curiosidade sobre mindfulness, atenção plena, ou neurociência do comportamento, por favor me escreva que terei prazer em abordar seu tema em textos futuros: demarzo@unifesp.br

Referência:

Garcia-Campayo & Demarzo. ¿Qué sabemos del mindfulness? (Espanhol). Kairós Editorial, 2018.

Para saber mais sobre mindfulness:

www.mindfulnessbrasil.com (Mente Aberta – Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde – UNIFESP)

www.webmindfulness.com (WebMindfulness – Grupo de Pesquisa Coordenado pelo Prof. Javier García-Campayo – Universidad de Zaragoza, informações em espanhol)

www.umassmed.edu/cfm (Centro de Meditação "Mindfulness" na Medicina, Universidade de Massachusetts, Estados Unidos, informações em inglês)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Marcelo Demarzo é médico especialista em mindfulness (atenção plena), professor e pesquisador na área de medicina, saúde e bem-estar. Ministra cursos e palestras sobre estilo de vida mindful, bem-estar e saúde --expertise desenvolvida em 15 anos como professor e pesquisador em vários hospitais e universidades brasileiras (UNIFESP, USP, Hospital Israelita Albert Einstein) e internacionais (Universidade de Oxford, Universidade de Zaragoza, Harvard University). É autor de livros e estudos científicos relacionados ao tema de mindfulness e qualidade de vida e realiza dezenas de atendimentos individuais e em grupo para disseminar o conceito de mindful living (viver pleno e consciente). É coordenador da Especialização em Mindfulness da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo).

Sobre o blog

Dicas e reportagens sobre saúde e qualidade de vida, com foco em mindfulness e bem-estar. Um espaço interativo para conversarmos sobre como desenvolver um estilo de vida mais mindful (pleno e consciente), que irá ajudá-lo a lidar melhor com o estresse, algo tão comum na nossa vida atual.

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